• Sermão do Mandato – Padre Antonio Vieira (1643)

    by  • 19/11/2006 • amor • 0 Comments

    …sobre as palavras que tomei, tratarei quatro coisas, e uma só. Os remédios do amor e o amor sem remédio…

    Padre Antonio Vieira (1608-1697)

    Primeiro Remédio
    O Tempo

    Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sábiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.

    Segundo Remédio
    Ausência

    Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor com a da terra. E o amor como a lua que, em havendo terra em meio, dai-o por eclipsado. E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar, e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes, passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor. Os filósofos definiram a morte pela ausência: Mors est absentia animae a corpore. Despediram-se com grandes demonstrações de afeto os que muito se amavam, apartaram-se enfim, e, se tomardes logo o pulso ao mais enternecido, achareis que palpitam no coração as saudades, que rebentam nos olhos as lágrimas, e que saem da boca alguns suspiros, que são as últimas respirações do amor. Mas, se tomardes depois destes ofícios de corpo presente, que achareis? Os olhos enxutos, a boca muda, o coração sossegado: tudo esquecimento, tudo frieza. Fez a ausência seu ofício, como a morte: apartou, e depois de apartar, esfriou.

    Terceiro Remédio
    Ingratidão

    Assim como os remédios mais eficazes são ordinariamente os mais violentos, assim a ingratidão é o remédio mais sensitivo do amor, e juntamente o mais efetivo. A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. Se ponderarmos os efeitos de cada um destes contrários, acharemos que a ingratidão é o mais forte. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo, por ser antigo, ou por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado; se o deixamos de amar não é culpa sua, é injustiça nossa; porém, se foi ingrato, não só ficou indigno do mais tíbio amor, mas merecedor de todo o ódio. Finalmente o tempo e a ausência combatem o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver? O exemplo que temos para justificar esta razão ainda é maior que os passados.

    Quarto Remédio
    O melhorar de objeto

    Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim no mesmo coração não podem caber dois amores, porque o amor que não é intenso não é amor. Ora, grande coisa deve de ser o amor, pois, sendo assim, que não bastam a encher um coração mil mundos, não cabem em um coração dois amores. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto. É o amor entre os afetos como a luz entre as qualidades. Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas. Em aparecendo o maior e melhor objeto, logo se desamou o menor.

    Amor Sem Remédio

    Se quando se rendem ao mesmo amor todos os contrários, será justo que lhe resistam os seus, e se na hora em que morre de amor sem remédio o mesmo amante, será bem que lhe faltem os corações daqueles por quem morre? Amemos a quem tanto nos amou, e não haja contrário tão poderoso que nos vença, para que não perseveremos em seu amor.

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    0 Responses to Sermão do Mandato – Padre Antonio Vieira (1643)

    1. Patricia
      25/11/2006 at 01:43

      Gostei.
      Vc sabe usar as palavras e faz uso delas com maestria para revelar o estado de espírito do seu coração e da sua alma.
      Beijos,Patricia

    2. 15/01/2008 at 15:32

      somente quem conhece com profundidade o amor hágape pode falar com tanta segurança do amor heros

    3. Pingback: Combaro Português : Dia 6 de Fevereiro de 2008 - SOL de "ao preço a que estão certas espécies de peixe, a quaresma é mesmo de penitência."

    4. PGMATHEUS
      17/04/2008 at 16:13

      Não entendi nada

    5. JOSÉ PAULINO
      29/04/2008 at 22:49

      Fico absorto diante dos Sermões de Vieira.

    6. eu
      27/06/2008 at 11:27

      Não entendi direito qdo ele fala em Amor sem remédio: “será bem que lhe faltem os corações daqueles por quem morre?” O que ele quis dizer com isso??

      Tb não entendi: “Amemos a quem tanto nos amou, e não haja contrário tão poderoso que nos vença, para que NÃO perseveremos em seu amor.” Não seria “e não haja contrário tão poderoso que nos vença, para que perseveremos em seu amor”??

    7. paulo cesar nery
      17/08/2008 at 14:22

      E isso mesmo ,fico pensando se tivesse tantos oradodores como antonio vieira ,o mundo seria melhor o cristianismo seria mais serio.

    8. paulo cesar nery
      17/08/2008 at 14:27

      Amar sem remedio , ele fala do amor fino o qual cristo demostrou ,morrendo por amor sem reconpença, com puro amor

    9. 15/10/2008 at 20:26

      Aff, preciso estudar isso

    10. 15/10/2008 at 20:42

      Então, mãos à obra, Matheus. :)

    11. luana
      28/10/2008 at 20:12

      nossa é muito bom heim!!

    12. Emanuela Sampaio
      03/11/2008 at 21:30

      adorei!

    13. Karla
      11/11/2008 at 15:08

      Oi,tudo bem?
      Eu sou estudante,e minha professora me pediu um trabalho,pesquizar um sermão do Padre Antonio Vieira,mas eu quero dizer que ta muito dificil porque esses sermões está muito grande,gostaria de encontrar sermões pequenos,espero que voces diminuem eles por favor
      Obrigado

    14. 11/11/2008 at 18:54

      Karla, eu não sei se haveria uma versão reduzida dos sermões do Padre Vieira. Ao mesmo tempo, temos que ter em mente que um sermão é um sermão é um discurso longo.

      Abraços.

    15. Teco
      17/11/2008 at 16:13

      “Eu”, a sentença está certa, acontece que o tempo passa e a escrita, bem como seus costumes e convenções, muda. Deve ser por isso que a frase parece errada pra você, mas é apenas uma questão de interpretar da forma direita.

      “[...] não haja contrário tão poderoso que nos vença, para que NÃO perseveremos em seu amor.”

      “Traduzindo”: Que nenhum contra seja suficientemente poderoso para que o amor NÃO persevere.

      Abraço.

    16. jak oliveira
      08/12/2008 at 13:18

      eu não entendo do q ele ta falando quando diz:
      tudo cura o tempo,tudo faz esquecer,tudo gosta,tdo digere,tudo acaba. acho que ele se refere ao amor.

    17. Ana
      21/04/2009 at 05:55

      Maravilhoso,conheço o primeiro remédio, O Tempo, desde menina. Sou tão apaixonado por ele que decorei e é incrível que a cada momento da minha vida ele assuma um significado diferente.

    18. marcos uelbe
      06/06/2009 at 15:39

      Soneto do amor inexistente

      De tantas palavras soltas de amor;

      Aquilo que ambos diziam sentir;

      Na triste partida da dor;

      Do amor que deixou de existir.

      O que faz acreditar nas palavras

      De quem nunca se amou,

      É a solidão que encrava

      No peito de quem sempre chorou.

      A saudade amarga na alma;

      Tudo o que não se viveu;

      Promessas que foram deixadas

      Como um livro que não se leu,

      Talvez a vida é enganada

      De um amor que nunca nasceu!

      Marcos Uelbe

    19. Pingback: Padre Antônio Vieira « Blog do Domingos Sávio

    20. igor gomes
      26/11/2009 at 17:14

      afe, que lixo, preciso estudar isso.=s

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