• Não tem tradução

    by  • 05/03/2008 • Brasil, Cinema, Comportamento, Cotidiano, Cultura, Futebol, História, João Bosco, Língua Portuguesa, MPB, Música, Palavras, Samba • 7 Comments

    The Rosetta Stone in the British Museum © Bettmann/CORBIS

    A nossa imprensa foi responsável por transformar o nobre esporte bretão em algo mais palatável lingüisticamente para nós e, assim, nos tornamos o país do futebol (football). Não sabe como isto se deu? Por acaso você sabe quem foi o center forward (atacante) de seu team (time), que durante o último match (jogo) passou pelo back (zagueiro) do club (clube) adversário e este cometeu foul (falta) quando ele marcaria um goal (gol), tendo o goalkeeper (goleiro) já fora do lance, jogando a bola pela linha de fundo e o referee (juiz) marcou corner (escanteio)?

    O povo também dá seu jeito quando não entende, mas o som do que se ouve dito em outra língua pode ser transformado para algo pronunciável e, certamente, compreensível. Por exemplo, Maxambomba, um termo classificado como brasileirismo, era uma pequena locomotiva que puxava vagões de dois andares com cabine sem coberta para os maquinistas e vem de machine bomb, pois quem implantou as ferrovias e os maquinários no Brasil foram empresas inglesas. No Rio de Janeiro, a cidade de Nova Iguaçu, inicialmente também recebia o nome de Maxambomba justamente por este motivo. Isto para não falar do brasileirismo Tirampa, que veio da música Sex Machine, do James Brown, quando o pessoal dos bailes de subúrbio não entendia que ele gritava GET UP.

    Isto não é uma crítica. É uma observação. O que não se entende, pelo menos eu não entendo, é o uso de estrangeirismos na linguagem quando podemos ter alguma palavra similar. Lógico que a norma vem do uso como, por exemplo, o uso da palavra vitrine, um galicismo, em vez de vitrina. Ora, todos nós usamos vitrine e seguimos em frente. Caso paracido há em Portugal, onde as telas da televisão, do cinema e também a do monitor de um computador são conhecidas como écran (outro galicismo). É estranho ver um texto escrito por alguém e a cada cinco ou seis palavras surgir um termo em inglês, que tem o equivalente em português e que é comumente usado, como se isto conferisse não só maior sabedoria mas também um ar moderninho. Muito provavelmente alguém vai dizer: Ah, mas você escreve site quando quer dizer que alguém tem um página na Internet e vai fazer um link pra chegar até lá. Tudo bem, temos equivalentes mas que ainda não são usados para denominar que alguém tem um sítio ou página, como quiserem, na Internet e será feita uma ligação ou encadeamento, como quiserem, para lá.

    Há quem diga que até mesmo a praga do gerundismo tenha nascido da tradução de manuais e livros em Inglês. No desligamento de seu computador também surge esta praga diante de nossos olhos “O Windows está sendo desligado”.

    A invenção do cinema falado foi um marco de caráter mundial como se sabe. Aqui no Brasil a chegada desta novidade, lá pelos idos da década de 1930, alguns anos após a exibição do primeiro filme sonorizado, O Cantor de Jazz (The Jazz Singer), protagonizado por Al Jolson, foi que a nossa língua portuguesa passou a sofrer maiores influências e afluências de anglicismos superando ou até mesmo bloqueando a chegada de novos galicismos. Isto tem um caráter cultural e econômico, devido ao crescimento contínuo da economia do grande irmão do norte.

    Entre meados do século XIX até um pouco antes da Segunda Grande Guerra podemos dizer que o Brasil era um país francófilo. Para isto, basta ver um pouco da arquitetura do Rio de Janeiro, a então capital, do início do século XX para comprovar. Os prédios da Biblioteca Nacional e do Teatro Municipal são exemplos perfeitos disto, pois foram baseados em construções francesas. Mas, com o advento das novas tecnologias de entretenimento como a gravação de discos e, principalmente o cinema fomos lentamente nos tornando, digamos, mais ligados à cultura de língua inglesa.

    Como nossos compositores que também eram cronistas sociais em suas músicas e estavam ligados ao momento em que viviam, nos deram saborosíssimos exemplos de crítica bem-humorada destas influências. Temos, então, Assis Valente e Noel Rosa que, em 1932 e 1933, respectivamente, lançaram dois sambas que tratavam deste fato. Tem Francesa no Morro, o primeiro, era bastante jocoso e falava num francês macarrônico que não era complicado de entender. O segundo, Não Tem Tradução, de Noel Rosa, já fazia uma crítica a “essa gente que tem a mania da exibição”, identificando certo esnobismo por parte dos nativos no uso de expressões estrangeiras querendo, assim, destacar-se do restante da plebe ignara.

    O tempo passou e a coisa não mudou muito. Aí vieram João Bosco e Aldir Blanc que compuseram Prêt-à-porter de Tafetá, na qual usam e abusam de palavras em francês misturando-as com as nossas que são oxítonas, quer dizer, tonicidade na última sílaba. E um pouco mais adiante, Zeca Pagodinho e Zeca Baleiro gravaram o sensacional Samba do Aprroach, em que termos da língua inglesa fazem complemento ao sentido das frases da música.

    Vamos nos deliciar com esta seleção musical?

    Recanto Galeria03

    Você pode ouvir esta seleção no Recanto das Palavras – Galeria
    Ou direto no seu computador copiando o endereço abaixo:

    http://n90.mediamaster.com:8000/plist/3000130218/jadc01

    Agora, as letras das músicas:

    Tem Francesa no Morro (Assis Valente)
    Donê muá si vu plé lonér de dancê aveque muá
    Dance Ioiô
    Dance Iaiá

    Si vu frequenté macumbe entrê na virada e fini por sambá
    Dance Ioiô
    Dance Iaiá

    Vian
    Petite francesa
    Dancê le classique
    Em cime de mesa

    Quand la dance comece on dance ici on dance aculá
    Dance Ioiô
    Dance Iaiá

    Si vu nê vê pá dancê, pardon mon cherri, adiê, je me vá
    Dance Ioiô
    Dance Iaiá

    Não Tem Tradução (Noel Rosa)
    O cinema falado é o grande culpado da transformação
    Dessa gente que pensa que um barracão prende mais que o xadrez
    Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
    A Risoleta desiste logo do francês e do inglês
    A gíria que o nosso morro criou
    Bem cedo a cidade aceitou e usou
    Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
    Na gafieira dançar o Fox-Trote
    Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
    Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
    Tudo aquilo que o malandro pronuncia
    Com voz macia é brasileiro, já passou de português
    Amor lá no morro é amor pra chuchu
    As rimas no samba não são I love you
    E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
    Só pode ser conversa de telefone.

    Preta-Porter de Tafetá (João Bosco e Aldir Blanc)
    Pagode em Cocotá
    Vi a nega rebolá
    Num preta-porter de tafetá
    Beijei meu patuá
    Ói, sambá, Oi, ulalá
    Mé carrefour, o randevú vai começar

    Além de me empurrá
    “Kes que sê, tamanduá?
    Purquá jé suí du zanzibar”

    Aí, eu me criei: pás de bafo, mon bombom
    Pra que zangar?
    Sou primo do Villegagon
    Voalá e çavá, patati, patatá
    Boulevar, saravá, sou da Praça Mauá
    Dendê, matinê, pas-de-dê, meu petí comitê, bambolê
    Encaçapo você.

    Taí, seu Mitterrand
    Marcamos pra amanhã em Paquetá
    Num flamboyant em fleur
    Onde eu vou ter colher.

    Pompadú? Zulu
    Manjei toa bocú!…

    Samba do Approach (Zeca Baleiro)
    Venha provar meu brunch
    Saiba que eu tenho approach
    Na hora do lunch
    Eu ando de ferryboat…(2x)

    Eu tenho savoir-faire
    Meu temperamento é light
    Minha casa é hi-tec
    Toda hora rola um insight
    Já fui fã do jethro tull
    Hoje me amarro no Slash
    Minha vida agora é cool
    Meu passado é que foi trash…

    Venha provar meu brunch
    Saiba que eu tenho approach
    Na hora do lunch
    Eu ando de ferryboat…(2x)

    Fica ligado no link
    Que eu vou confessar my love
    Depois do décimo drink
    Só um bom e velho engov
    Eu tirei o meu green card
    E fui prá Miami Beach
    Posso não ser pop-star
    Mas já sou um nouveau riche…

    Venha provar meu brunch
    Saiba que eu tenho approach
    Na hora do lunch
    Eu ando de ferryboat…(2x)

    Eu tenho sex-appeal
    Saca só meu background
    Veloz como Damon Hill
    Tenaz como Fittipaldi
    Não dispenso um happy end
    Quero jogar no dream team
    De dia um macho man
    E de noite, drag queen…

    Venha provar meu brunch
    Saiba que eu tenho approach
    Na hora do lunch
    Eu ando de ferryboat…(7x)

    * A gravura que ilustra este artigo chama-se “A Pedra de Rosetta em Exposição no British Museum. ₢ Corbis

    Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

    Atigos correlatos

    7 Responses to Não tem tradução

    1. Alexandra
      05/03/2008 at 12:25

      O “Tem Francesa no Morro” eu ouvi na voz de Marília Pêra, ainda não tinha visto outra pessoa que o conhecesse, hehehe.

      A listinha do futebol:

      Back – Meio zagueiro, no interior do Brasil chamava-se “beque”;
      Ball – Bola;
      Captain – Capitão;
      Center-foward – Centroavante;
      Corner – Escanteio;
      Dribling – Finta, drible;
      Defense – Defesa;
      Draw – Empate;
      Foul – Falta;
      Free-kick – Tiro livre;
      Full back – Zagueiro;
      Goal – Gol;
      Goalkeeper – Goleiro;
      Goal-kick – Tiro de meta;
      Goal-line – Linha de fundo;
      Goal-net – Rede;
      Ground – Campo;
      Hacking – Pontapé no adversário;
      Handling – Toque proposital com a mão;
      Inside – Meia armador;
      Kick-off – Pontapé inicial;
      Linesman – Auxiliar, bandeirinha;
      Marking – Marcador;
      Match – Jogo, partida;
      Offside – Impedimento;
      Passing – Passe;
      Penalty – Penalidade máxima;
      Referee – Árbitro;
      Return-match – Jogo de revanche;
      Score – Resultado;
      Shoot – Tiro, chute, finalização;
      Shooter – Chutador, finalizador;
      Tackle – Ataque;
      Team – Time;
      Throw-in – Arremesso lateral;
      Toss – Sorte, sorteio, escolha;
      Time – Tempo;
      Training – Treino;
      Volley – Chutar de voleio;
      Wing – Ala.

    2. 05/03/2008 at 22:39

      Não vale goal de hand! :)

    3. giovanna
      24/05/2008 at 13:28

      eu gostei muito do seu site parabéns

    4. 24/05/2008 at 13:38

      Giovana,

      Fico contente que você tenha gostado.

      Obrigado por suas palavras.

    5. Pingback: Trem das Onze Blues ou São Paulo não é o túmulo do samba « Recanto das Palavras

    6. karine
      01/10/2008 at 21:15

      não é isso que eu quero

    7. Pingback: França.Br - 2009, o ano da França no Brasil « Recanto das Palavras

    Deixe um Comentário

    O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *