• Literatura infantil radical ou As crianças de esquerda

    by  • 12/01/2009 • Arte, Artigos, Autor, Comportamento, Comunicação, Cotidiano, Cultura, Ecologia, Economia, Educação, Escritores, História, Lapa, Leitor, Literatura, Livros, Mercado Editorial, Opinião, Política, Professores, Quadrinhos, Sociedade • 9 Comments

    A atual crise econômica também está afetando as mentalidades e os alicerces ideológicos da única superpotência que restou, os EUA, local no qual a crise teve início e se alastrou pelo mundo. A paranóia que parece tomar alguns setores é tamanha que alguns críticos já começam a temer pelos ideais liberais, visto, justamente, ter sido lançado um livro Tales for Little Rebels: A Collection of Radical Children’s Literature (algo como Contos para pequenos rebeldes: Uma coletânea de literatura infantil radicalista), de Julia L. Mickenberg e Philip Nel, pela NYU Press,  que analisa as ideias esquerdistas contidas em cerca 100 ilustrações de 43 livros infantis, já esgotados, escritos durante o século XX.

    Segundo um articulista do New York Times, a juventude norte-americana já está perdida, pois foram incutidas ideias radicalistas durante todo o século XX nas mentes das crianças em livros escritos por esquerdistas ou que trouxessem ideais esquerdistas em suas histórias. Os pavorosos ideais esquerdistas seriam a busca pela Paz (sim, eu escrevo em letra maiúscula), os direitos civis, a igualdade de direitos entre homem e mulher, a responsabilidade ambiental e a dignidade do trabalho.

    littlerebelsClique sobre a capa e veja algumas ilustrações do livro

    Além disso, a mais arrepiante das ideias seria: “os esquerdistas ensinaram as crianças a questionar a autoridade de quem estava no poder”. Tanto que logo no início do artigo, Caleb Crain, o articulista, descreve o seu receio desta forma, ao perguntar o que será das crianças dos EUA:

    Empresas financeiras estão sendo nacionalizadas (estatizadas) aos borbotões. O governo promete socorrer empresas para combater a recessão. Existem, ainda, rumores de que a assistência (previdência) social será universalizada (o Estado arcando com os custos). O Socialismo se alastra como um mar! À medida que vamos nos esquecendo do Capitalismo, os tradicionalistas (conservadores de direita) se perguntam: o que restará para nossas crianças?”

    Só faltou dar a receita de um ensopado de crianças, não? E ainda critica os pais que estimulam atitudes, digamos coletivas, que não observem o sentido de posse, individualismo e competitividade; o que bem caracteriza as sociedades competitivas e individualistas, com a seguinte passagem:

    A maioria dos pais quer ver seus filhos tendo ideais de esquerda na mais tenra infância como partilhar os brinquedos, evitando, assim, as disputas entre os irmãos e, daí a começarem a perceber as empresas como sendo um mal, tendo por base uma visão cética que os pais lhes ensinaram, é um pulo”.

    Isto me faz pensar em outro “ismo” ainda mais aterrorizante, o fascismo, que é o radicalismo de direita. Lembremos das tropas de crianças alemãs lutando contra os aliados já nos estertores da Segunda Grande Guerra. Uma coisa abominável. Tudo isso motivado por uma ideologia(?) nojenta e que, pasme, ainda está por aí grassando.  Isto para não falar em um outro “ismo” associado ao aspecto espiritual, que é tão maquiavelicamente manipulado, o fanatismo religioso.

    As opiniões dos críticos literários e educadores são diametralmente opostas a do articulista. Vejamos, por exemplo, a opinião de Anita Silvey, autora de Os 100 Melhores Livros Para Crianças”:

    Um aspecto raramente discutido em literatura infantil e infantojuvenil é a ideologia política por trás das histórias, ou parte da criação de determinado livro foi exaustivamente explorado neste inteligente, esclarecedor e fascinante estudo. Mesmo aqueles que passaram a vida toda estudando a literatura infantil encontrará incríveis surpresas (…) O livro não é apenas relação de histórias. É, na verdade, uma muito oportuna e adequada exploração da inclusão político-social que se encontra no conteúdo de livros infantis. (…) Professores e bibliotecas devem adquirir ao menos um exemplar. Cada professor de Literatura deve lê-lo e as crianças devem ser estimuladas a ler o livro e partilhar com seus colegas.

    Um dos grandes dilemas das duas grandes superpotências que existiram durante boa parte do século XX, a União Soviética e os Estados Unidos, era saber como perpetuar os seus ideais políticos entre seus habitantes. A Guerra Fria foi o auge desse dilema, pois de lado a lado incutiam na população suas ideologias de forma que o outro lado parecesse o mais pavoroso dos monstros já criados. Ou eram burgueses decadentes ou eram comedores de criancinhas e foram levando essa “batalha” interna até a queda do muro de Berlim. Hoje, a preocupação é mais religiosa, envolvendo conflitos aos moldes das cruzadas.

    * Este artigo foi escrito a partir da livre tradução feita por mim, da resenha Children of Left, Unite!, de Caleb Crain, para o New York Times Books Review, de 09/01/2009.

    Fontes de pesquisa para elaboração do artigo:
    New York Times Books Review
    NYU Press
    Crooked House

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    9 Responses to Literatura infantil radical ou As crianças de esquerda

    1. 12/01/2009 at 22:28

      Muito bom, é uma área que domino, mas existem muito mais fatos relacionados à leitura do que pensamos. Dê uma olhada num post meu sobre a importancia da leitura.

    2. 13/01/2009 at 06:59

      meu primeiro livro foi de julio verne – virei sonhador – tem uma baita influencia mas eu quero que os americanos se ferrem com seu racismo embora sejam o povo mais cuiudo do mundo. esquerda e direita sao iguais com a diferença que na esquerda voce tem que ser um pelego ou falar bem e na direita se um poderoso for com a tua cara tua ganhou a vida.

    3. 13/01/2009 at 08:01

      Enquanto tudo vai bem no é mais fácil calar as vozes contrárias ao sistema, mas quando vai mal isto muda.
      Muito bom o post
      Abraços

    4. 13/01/2009 at 09:56

      É muito difícil imaginar os EUA como socialistas, mas os tempos estão mudando e a crise está ai. A estatização dos bancos mostra como um governo capitalista pode utilizar táticas socialistas para não quebrar a cara.

    5. 13/01/2009 at 18:57

      Penso que,a leitura influencia sim, mas depois de uma certa idade,quando começamos a questionar as coisas, as opiniões mudam.Nada é para sempre.

    6. 14/01/2009 at 09:13

      Mais uma vez vc nos presenteia
      com mais um tema real.
      Obrigada querido e Parabéns!!
      Carinho de RO!

    7. 14/01/2009 at 13:38

      Olá Jorge,

      Bem, eu não sou de esquerda mas “Paz, os direitos civis, a igualdade de direitos entre homem e mulher, a responsabilidade ambiental e a dignidade do trabalho” são conceitos pelos quais estou disposta a lutar para conseguir e manter. Só que talvez a maneira como eu vejo que tudo isto possa ser conquistado, seja diferente do modo como os esquerdistas o vejam (às vezes me parece que a visão deles seja mais ingénua, menos real, imberbe até).

      ““os esquerdistas ensinaram as crianças a questionar a autoridade de quem estava no poder”” – é verdade. E por consequência, os jovens de hoje não sabem quem devem respeitar. Não reconhecem a figura da autoridade, e quase que apelam à anarquia…isto deve ser combatido.

      LOL os meus pais incentivaram-me, e ao meu irmão, a partilhar os brinquedos mas também nos transmitiram valores de centro-direita…por isso, uma coisa não tem nada a ver com a outra. A partilha de brinquedos é para fomentar os valores familiares, a ligação de sangue e o que tudo isso comporta.

      O fascismo é uma praga. O comunismo outra praga é. O socialismo a pender para a esquerda é ambíguo, e o socialismo democrata a pender para a esquerda é uma anedota.
      Socialismo democrata tem de pender para a direita, mantendo sempre a componente social (a responsabilidade social jamais pode ser descurada); mas trabalhando para um mercado livre (ainda que regulamentado).

      Não sei se a preocupação de hoje é mais religiosa ou se é de mais poder monetário. Mas ainda tenho de pensar bem nisto.

      Excelente artigo, Jorge!

      Um abraço

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