• Música ruim e a surdez cultural

    by  • 28/06/2009 • Aldir Blanc, Artigos, Aventura, Citações, Comportamento, Comunicação, Cotidiano, Crônicas, Cultura, Educação, História, Língua, Língua Portuguesa, Magistério, MPB, Música, Opinião, Palavras, Português, Professores, Reflexões • 7 Comments

    Como duas músicas podem ensinar os jovens a entenderem as palavras e iniciarem um diálogo.

    Percebi, ao ditar alguns temas nas primeiras aulas deste ano, para as turmas que iniciavam o 2º grau que, ou eu estava perdendo a dicção (seria um AVC em plena aula?) ou meus alunos eram surdos. Fiquei um tanto assustado com ambos fatos. Na altura de segunda semana de aulas, eu constatei que: não perdera a dicção (e não tivera um AVC… ufa!) e que meus alunos não são surdos. Na verdade, a maioria não conhece as palavras, o que é muito pior!

    Passei a observar os diálogos deles, não apenas ao se dirigirem a mim, mas também, quando se dirigem uns aos outros. Infelizmente, o universo vernacular deles é limitadíssimo. Coisa do tipo:

    - E, aí? Tá ligado na parada?

    - Sinistro…

    E termina a conversa.

    Ao mesmo tempo, as músicas que ouvem – o tal estilo “proibidão” – ou funk com três ou quatro frases em que a concordância apanha mais que boi fujão e as rimas(?) que sempre terminam em “ão” ou “inho”, para poder juntar escatologia com descrição de uma cena de sexo, por sinal, de péssima qualidade literário-musical e sexual. Se nem ao menos é possível descrever uma coisa prazerosa com qualidade, imagine o uso da Língua Portuguesa no cotidiano? Disso podemos observar dois fatos gritantes, a saber: 1 – a leitura é inexistente em qualquer nível; 2 – Não ouvem frases bem construídas ou palavras que enriqueçam em qualidade e quantidade os seus diálogos e, consequentemente, a escrita.

    Comecei a me policiar para não usar palavras que fujam muito desse “mundo”, sem, porém, perder a qualidade. Penso que estarei, assim, contribuindo para que enriqueçam o vocabulário.

    Por qual motivo citei música e desconhecimento do vocabulário? Simples: As letras das músicas, apesar de algumas licenças poéticas, são excelentes fontes de aquisição de vocabulário e, também, uma forma de aprender a usar as palavras, construir frases, pensamentos e, enfim, comunicar uma ou várias idéias.

    Imagine, portanto, uma versão atual, sendo vertida para o “vasto” universo vocabular dos nossos estudantes, para “Sinal fechado”, do Paulinho da Viola e “Amigo é pra essas coisas”, do Silvio Silva Jr. e Aldir Blanc, que são crônicas, ou diálogos musicados, em que os interlocutores falam sobre suas vidas, cotidiano e perspectivas.  Vejamos como ficariam:

    - E aí?
    - Sinistro…

    Triste, não?

    Mas, para a nossa alegria, abaixo estão as músicas com suas respectivas letras.

    Amigo é para essas coisas

    mpb4

    Composição: Silvio Silva Júnior/Aldir Blanc

     

    - Salve!
    - Como é que vai?
    - Amigo, há quanto tempo!
    - Um ano ou mais…
    - Posso sentar um pouco?
    - Faça o favor
    - A vida é um dilema
    - Nem sempre vale a pena…
    - Pô…
    - O que é que há?
    - Rosa acabou comigo
    - Meu Deus, por quê?
    - Nem Deus sabe o motivo.
    - Deus é bom!
    - Mas não foi bom pra mim…
    - Todo amor um dia chega ao fim.
    - Triste.
    - É sempre assim…
    - Eu desejava um trago.
    - Garçom, mais dois!
    - Não sei quando eu lhe pago.
    - Se vê depois.
    - Estou desempregado.
    - Você está mais velho..
    - É…
    - Vida ruim…
    - Você está bem disposto.
    - Também sofri.
    - Mas não se vê no rosto.
    - Pode ser…
    - Você foi mais feliz.
    - Dei mais sorte com a Beatriz!
    - Pois é…
    - Pra frente é que se anda.
    - Você se lembra dela?
    - Não..
    - Lhe apresentei!
    - Minha memória é fogo!
    - E o l´argent?
    - Defendo algum no jogo.
    - E amanhã?
    - Que bom se eu morresse!
    - Pra quê, rapaz?
    - Talvez Rosa sofresse.
    - Vá atrás!
    - Na morte a gente esquece.
    - Mas no amor agente fica em paz.
    - Adeus…
    - Toma mais um!
    - Já amolei bastante.
    - De jeito algum!
    - Muito obrigado, amigo.
    - Não tem de quê.
    - Por você ter me ouvido.
    - Amigo é prá essas coisas.
    - Tá…
    - Tome um cabral!
    - Sua amizade basta.
    - Pode faltar.
    - O apreço não tem preço, eu vivo ao Deus dará.

    Sinal fechado

    Paulinho da Viola

    Composição: Paulinho da Viola

     

    - Olá, como vai ?
    - Eu vou indo e você, tudo bem ?
    - Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você ?
    - Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe …
    - Quanto tempo… pois é…
    - Quanto tempo…
    - Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios…
    - Oh! Não tem de quê…
    - Eu também só ando a cem…
    - Quando é que você telefona ? Precisamos nos ver por aí.
    - Pra semana, prometo talvez nos vejamos. Quem sabe ?
    - Quanto tempo… pois é… (pois é… quanto tempo…)
    - Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas.
    - Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança.
    - Por favor, telefone, eu preciso beber alguma coisa, rapidamente.
    - Pra semana.
    - O sinal …
    - Eu espero você.
    - Vai abrir…
    - Por favor, não esqueça.
    - Adeus…

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    7 Responses to Música ruim e a surdez cultural

    1. 01/07/2009 at 12:21

      Genial… E sinistra perspectiva…

      Eu lembro que com Ária de Opereta + Google eu aprendi o que cada referência da riquíssima música de Aldir e Guinga representava. O Aldir viajou em várias óperas, pôs tudo na letra. Eu não teria tempo suficiente pra entender aquelas obras por mim mesmo por pelo menos uns 15 anos. Só a síntese musical pôde me explicar um caminhão de cultura desse, mesmo assim muito superficialmente. Mas já bateu sede de assisti-las, “tá ligado”? :)

    2. 01/07/2009 at 20:45

      Pois é, Rodrigo.

      Eu também sou ligado nas coisas do Aldir Blanc. Tenho vários discos com suas músicas e seus livros. O cara é um manancial de cultura inesgotável. Andei escrevendo alguns artigos aproveitando suas músicas e me diverti bastante fazendo isso.

      Valeu, mano! :)

    3. Neo
      03/07/2009 at 09:04

      É…
      Tempos modernos e suas nuances.. que já ném são nuances. Estão virando fatos do dia a dia.
      É triste ouvir certas coisas… principalmente quando você não quer.
      Enfim…
      A vida segue, os costumes mudam. Mas o que não poderia acontecer é este mal gosto extremo que cai sobre nós.
      “Pra terminar, quem vai colar… os tais caquinhos do velho mundo…”

      Abração meu velho!

      Neo
      twitter.com/todosossentidos

    4. 03/07/2009 at 12:52

      S- E- N -S -A- C- I- O- N -A -L !!!!!!!
      Adorei seu comentario e os vídeos, maravilhos,
      e assino em baixo, se me permitir,,rss.
      Pouco venho aqui, mas quando venho fico a me deliciar com seus escritos. Você ´10.000!!!!
      Parabéns querido.
      Que seu final de semana seja radiante,
      ta ligado?!,,rsss (brincaderinha,,rss)…
      Beijos!

    5. Pingback: Tweets that mention Música ruim e a surdez cultural | Recanto das Palavras -- Topsy.com

    6. 19/03/2011 at 16:30

      Eu sempre digo aos meus alunos que falar é como um guarda-roupa. Vc tem roupas para diversas ocasiões: para dormir, sair com os amigos, ir ao shopping, ir a uma festa, uma entrevista de emprego.

      Assim deve ser o linguajar. Eles precisam ter cuidado com as palavras, pois isso fecha muitas portas. Felizmente, meus alunos são maravilhosos e entendem o que eu digo, pois nunca me fizeram passar vergonha. Até a coordenadora ficou surpresa ao entrar numa sala que um professor dizia ser “problema” e eu pedi que eles conversassem com a coordenadora da maneira correta e educada. Ela percebeu que o problema não eram eles… rs

      Ótimo texto.

    7. 19/03/2011 at 22:04

      Mais uma vez, a sua colocação foi perfeita. A verdade é que a língua exige um mínimo de coerência e outro tanto de concordância para que seja comunicada e entendida.

      Abraços.

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