Mulher também escreve carta de amor
by Jorge Alberto • 02/11/2009 • amor, Artigos, Casamento, Citações, Comportamento, Comunicação, Escritores, Featured_amor, Literatura, Livros, mulher, Opinião, Palavras, Poesia, Vida • 8 Comments
Você já recebeu carta de amor escrita por aquela mulher que você sempre amou? Muito provavelmente, sim. Acredite em uma coisa, meu amigo: Para elas chegarem a escrever palavras românticas é porque amam mesmo e de forma incondicional. Com toda certeza essa é uma das maiores, senão a maior demonstração do que elas sentem pelo homem que realmente amam.
Mesmo que o poeta tenha dito que todas as cartas de amor são ridículas por serem, justamente, cartas de amor; quem não gosta de ser ridículo de vez em quando? (ouça o poema Cartas de Amor, do Fernando Pessoa, na voz da Maria Bethânia). A palavra escrita é tão forte quanto a palavra dita. Talvez seja até um pouco mais significante, pois, ali, está registrado e concretizado o pensamento mais profundo e, como sabemos, palavras ditas esvaem-se no ar, mesmo que sejam verdadeiras. Não, eu não estou desmerecendo a palavra de amor quando proferida. Apenas estou tentando explicar que, ao escrever o que sente, a mulher está demonstrando exatamente o que está em seu coração. Vejamos, por exemplo, algumas palavras de Cecília Meirelles que nas linhas abaixo apresenta a mágoa de um amor.
Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.
Várias e várias poetas – no meu tempo era poetisa – escreveram palavras para seus amados. Exemplos de séculos passados como Gaspara Stampa e Louise Labé (século XVI); além de Elizabeth Barrett Browning (Século XIX), mostram que houve felicidade ou não em suas vidas românticas (faça o download do slide – Três Mulheres Apaixonadas – com um poema de cada uma delas). Já dizia o bom e velho Monsueto: “Mora na filosofia. Pra quê rimar amor e dor?”. Não deveria ser assim, mas na maioria das vezes é, infelizmente.
Também tenho certeza que muitos e muitas conhecem os poemas, ou pelo menos um poema da Florbela Espanca, que teve uma vida trágica e amores também, digamos, trágicos, que podem ser exemplificados nos versos abaixo:
Minh´alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão de meu viver,
Pois que tu és já toda minha vida!
Escrevi este artigo após a leitura de uma matéria no Times Online, intitulada The Most Romantic Love Letters Ever (algo como “As mais românticas cartas de amor de todos os tempos”), e, para indicar a profundidade do tema e dos escritos, ainda no título da matéria está escrito: “Entre as palavras mais românticas jamais colocadas no papel, essas cartas capturam o desejo e o desespero das mulheres extremamente apaixonadas, em todas as épocas”.
Na verdade, o artigo traz trechos do livro Love Letters of Great Women, que será lançado em novembro, na Inglaterra. São, então, apresentados trechos de cartas de amor escritas por Catarina de Aragão, a primeira esposa que Henrique VIII; pela rainha Vitória, que sofria a dor da viuvez de seu amado Albert; Emily Dickinson, a poeta norte-americana que publicou apenas um livro em vida e jamais se casou, mas deixou centenas de poemas. Dizem alguns estudiosos que suas cartas para a cunhada eram de tom lésbico. Além dessas mulheres, também são apresentados os motivos e trechos das cartas de Jane Welsh (1801-1866), que fora secretária do escritor escocês Thomas Carlyle. Entre os escritos de Jane, que hoje é considerada uma das maiores escritoras da língua inglesa, após sua morte, foram encontradas as seguintes palavras dentre sua obra: “Ontem ele passou uma hora comigo e foi como o céu. Eu o amo tanto” e “Esperei durante todo o dia para ouvir os passos dele no corredor, mas agora já é tarde. Acho que não virá hoje”. Nota-se, pelas palavras, que Carlyle negligenciava sua mulher em função de seu trabalho como escritor e palestrante.
As cartas de amor também são excelentes para revelar segredos de alcova, aquela parte do amor que é erótica. Amor sem sexo não dá, certo? Vejamos, por exemplo, o que a contista neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923) escreveu para seu marido:
Na noite passada, houve um momento antes de ir para a cama. Você estava completamente nu, inclinado para frente. Foi só por um instante. Eu vi você – Eu te amo tanto – amei seu corpo com tanta ternura – Ah meu querido – E eu não estou pensando sobre “paixão” agora. Não, claro que é outra coisa que me faz sentir que cada centímetro de você é tão precioso para mim. Seus ombros macios – sua pele quente sedosa, seus ouvidos como conchas são frias – suas pernas longas e pés que eu amo enredar com meus pés – sentir sua barriga – e costas suavemente jovens – Logo abaixo, na parte de trás do seu pescoço você tem um sinal de nascença. É, em parte porque somos jovens que eu sinto essa ternura – Eu amo a sua juventude – Eu não poderia suportar, mesmo que eu fosse o Senhor, que ela deva ser tocada nem pelo mais frio dos ventos.
Permita-me, senhora ou senhorita que chegou até aqui, mostrar-lhe o que a poeta Adélia Prado escreveu sobre um segredo de alcova no poema Objeto de Amor.
Portanto, meninas, demonstrem através de palavras o que sentem por seus amados. Tenha certeza que ele ficará mais apaixonado ainda.


Adorei.
Maravilhoso!
Sua criatividade e seu bom gosto
estão sempre presentes em suas postagens.
Beijo.
Juli,
Eu agradeço muito por suas palavras. Dão estímulo para que sempre possa escrever textos de qualidade.
Obrigado.
Beijos.
Jorge :O))
Amei o que acabei de ler, sou suspeita em falar pois sempre que posso escrevo cartas romanticas, aliás hoje substituida pelos e-mails, que não deixam de ser cartas…
Aquele trecho de Katherine Mansfield, foi lindo!!
Parabéns e é um tipo de leitura que me prende do começo ao fim, realmente gostei !
Bjos?
Helena
Oi, Helena!
Fico muito contente por saber que você gostou do texto. Eu também gostei de saber que você escreve e, mesmo nos e-mails, mantém algo de romântico.
bjs
Jorge:
Que coisa mais linda!
Voltei para reler sua postagem maravilhosa.
Eu procuro fazer de minha vida uma eterna
carta de amor…
Um abraço.
Juli,
Eu fico muito contente mesmo por saber que você gostou do artigo e que faz de sua vida uma eterna carta de amor.
Abraços.
Adoro cartas e sou suspeita para falar, estou recuperando cartas de familia para publicar, em uma época que ninguém mais espéra o carteiro com agonia. Amei o seu artigo, cartas de amor, até bem pouco tempo ainda se escrevia. bacana parabéns e um ótimo fim de semana. abraços
Nadia
Grande verdade, Nadia! A história do mundo passa pelas cartas e hoje, com o advento do e-mail, quantas histórias não se perderam para sempre ao desligar o computador, dar problema no HD ou apagarem tudo por causa de uma briguinha de amor.
Obrigado pelas palavras e comentário.
Abraços.