• Mulher também escreve carta de amor

    by  • 02/11/2009 • amor, Artigos, Casamento, Citações, Comportamento, Comunicação, Escritores, Featured_amor, Literatura, Livros, mulher, Opinião, Palavras, Poesia, Vida • 8 Comments

    Você já recebeu carta de amor escrita por aquela mulher que você sempre amou? Muito provavelmente, sim. Acredite em uma coisa, meu amigo: Para elas chegarem a escrever palavras românticas é porque amam mesmo e de forma incondicional. Com toda certeza essa é uma das maiores, senão a maior demonstração do que elas sentem pelo homem que realmente amam.

    Imagem © Tom Grill/Corbis

    Mesmo que o poeta tenha dito que todas as cartas de amor são ridículas por serem, justamente, cartas de amor; quem não gosta de ser ridículo de vez em quando? (ouça o poema Cartas de Amor, do Fernando Pessoa, na voz da Maria Bethânia). A palavra escrita é tão forte quanto a palavra dita. Talvez seja até um pouco mais significante, pois, ali, está registrado e concretizado o pensamento mais profundo e, como sabemos, palavras ditas esvaem-se no ar, mesmo que sejam verdadeiras. Não, eu não estou desmerecendo a palavra de amor quando proferida. Apenas estou tentando explicar que, ao escrever o que sente, a mulher está demonstrando exatamente o que está em seu coração. Vejamos, por exemplo, algumas palavras de Cecília Meirelles que nas linhas abaixo apresenta a mágoa de um amor.

    Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
    Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
    Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
    fiquei sem poder chorar, quando caí.

    Várias e várias poetas – no meu tempo era poetisa – escreveram palavras para seus amados. Exemplos de séculos passados como Gaspara Stampa e Louise Labé (século XVI); além de Elizabeth Barrett Browning (Século XIX), mostram que houve felicidade ou não em suas vidas românticas (faça o download do slide – Três Mulheres Apaixonadas – com um poema de cada uma delas). Já dizia o bom e velho Monsueto: “Mora na filosofia. Pra quê rimar amor e dor?”. Não deveria ser assim, mas na maioria das vezes é, infelizmente.

    Também tenho certeza que muitos e muitas conhecem os poemas, ou pelo menos um poema da Florbela Espanca, que teve uma vida trágica e amores também, digamos, trágicos, que podem ser exemplificados nos versos abaixo:

    Minh´alma, de sonhar-te, anda perdida
    Meus olhos andam cegos de te ver!
    Não és sequer a razão de meu viver,
    Pois que tu és já toda minha vida!

    Escrevi este artigo após a leitura de uma matéria no Times Online, intitulada The Most Romantic Love Letters Ever (algo como “As mais românticas cartas de amor de todos os tempos”), e, para indicar a profundidade do tema e dos escritos, ainda no título da matéria está escrito: “Entre as palavras mais românticas jamais colocadas no papel, essas cartas capturam o desejo e o desespero das mulheres extremamente apaixonadas, em todas as épocas”.

    Na verdade, o artigo traz trechos do livro Love Letters of Great Women, que será lançado em novembro, na Inglaterra. São, então, apresentados trechos de cartas de amor escritas por Catarina de Aragão, a primeira esposa que Henrique VIII; pela rainha Vitória, que sofria a dor da viuvez de seu amado Albert; Emily Dickinson, a poeta norte-americana que publicou apenas um livro em vida e jamais se casou, mas deixou centenas de poemas. Dizem alguns estudiosos que suas cartas para a cunhada eram de tom lésbico. Além dessas mulheres, também são apresentados os motivos e trechos das cartas de Jane Welsh (1801-1866), que fora secretária do escritor escocês Thomas Carlyle. Entre os escritos de Jane, que hoje é considerada uma das maiores escritoras da língua inglesa, após sua morte, foram encontradas as seguintes palavras dentre sua obra: “Ontem ele passou uma hora comigo e foi como o céu. Eu o amo tanto” e “Esperei durante todo o dia para ouvir os passos dele no corredor, mas agora já é tarde. Acho que não virá hoje”. Nota-se, pelas palavras, que Carlyle negligenciava sua mulher em função de seu trabalho como escritor e palestrante.

    As cartas de amor também são excelentes para revelar segredos de alcova, aquela parte do amor que é erótica. Amor sem sexo não dá, certo? Vejamos, por exemplo, o que a contista neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923) escreveu para seu marido:

    Na noite passada, houve um momento antes de ir para a cama. Você estava completamente nu, inclinado para frente. Foi só por um instante. Eu vi você – Eu te amo tanto – amei seu corpo com tanta ternura – Ah meu querido – E eu não estou pensando sobre “paixão” agora. Não, claro que é outra coisa que me faz sentir que cada centímetro de você é tão precioso para mim. Seus ombros macios – sua pele quente sedosa, seus ouvidos como conchas são frias – suas pernas longas e pés que eu amo enredar com meus pés – sentir sua barriga – e costas suavemente jovens – Logo abaixo, na parte de trás do seu pescoço você tem um sinal de nascença. É, em parte porque somos jovens que eu sinto essa ternura – Eu amo a sua juventude – Eu não poderia suportar, mesmo que eu fosse o Senhor, que ela deva ser tocada nem pelo mais frio dos ventos.

    Permita-me, senhora ou senhorita que chegou até aqui, mostrar-lhe o que a poeta Adélia Prado escreveu sobre um segredo de alcova no poema Objeto de Amor.

    Portanto, meninas, demonstrem através de palavras o que sentem por seus amados. Tenha certeza que ele ficará mais apaixonado ainda.

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    8 Responses to Mulher também escreve carta de amor

    1. 17/11/2009 at 20:51

      Adorei.
      Maravilhoso!
      Sua criatividade e seu bom gosto
      estão sempre presentes em suas postagens.

      Beijo.

    2. 17/11/2009 at 21:04

      Juli,

      Eu agradeço muito por suas palavras. Dão estímulo para que sempre possa escrever textos de qualidade.

      Obrigado.

      Beijos.

    3. Helena Marina
      19/11/2009 at 10:38

      Jorge :O))

      Amei o que acabei de ler, sou suspeita em falar pois sempre que posso escrevo cartas romanticas, aliás hoje substituida pelos e-mails, que não deixam de ser cartas…
      Aquele trecho de Katherine Mansfield, foi lindo!!

      Parabéns e é um tipo de leitura que me prende do começo ao fim, realmente gostei !

      Bjos?

      Helena

    4. 19/11/2009 at 20:39

      Oi, Helena!

      Fico muito contente por saber que você gostou do texto. Eu também gostei de saber que você escreve e, mesmo nos e-mails, mantém algo de romântico.

      bjs

    5. 13/06/2010 at 21:42

      Jorge:

      Que coisa mais linda!
      Voltei para reler sua postagem maravilhosa.
      Eu procuro fazer de minha vida uma eterna
      carta de amor…
      Um abraço.

    6. 15/06/2010 at 18:10

      Juli,

      Eu fico muito contente mesmo por saber que você gostou do artigo e que faz de sua vida uma eterna carta de amor.

      Abraços.

    7. Nadia Aparecida Foes
      20/08/2011 at 21:10

      Adoro cartas e sou suspeita para falar, estou recuperando cartas de familia para publicar, em uma época que ninguém mais espéra o carteiro com agonia. Amei o seu artigo, cartas de amor, até bem pouco tempo ainda se escrevia. bacana parabéns e um ótimo fim de semana. abraços
      Nadia

    8. 20/08/2011 at 22:06

      Grande verdade, Nadia! A história do mundo passa pelas cartas e hoje, com o advento do e-mail, quantas histórias não se perderam para sempre ao desligar o computador, dar problema no HD ou apagarem tudo por causa de uma briguinha de amor.

      Obrigado pelas palavras e comentário.

      Abraços.

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