Biopirataria e os ingleses
by Jorge Alberto • 16/11/2010 • Ecologia, História • 1 Comment
Os ingleses foram os primeiros a praticar a biopirataria na era moderna ao contrabandearem as seringueiras brasileiras.
Sabe aquele Jardim Botânico que tem em Londres que é uma estufa gigante? Pois é. Lá dentro estão duas das 70 mil sementes de seringueira contrabandeadas, em 1876, por um aventureiro que se tornou, depois, Sir Henry Wickham.
A sua passagem pelo Brasil marcou o início da Inglaterra como maior produtora mundial de borracha e o fim do ciclo da mesma na Amazônia, cujas sementes roubadas daqui foram parar nas colônias inglesas espalhadas pelo mundo.
Essa historia é registrada tendo duas visões, e é lógico que lá onde a maçã caiu na cabeça do mais implacável coletor de impostos que poderia existir e que por acaso era físico, um tal de Sir Isaac Newton, Henry Wickham é visto como herói. Aqui ele leva a fama de ser o Carrasco da Amazônia. Os defensores da tese que permitiu essa biopirataria, até escrevem livros meio aventurosos contando a biografia desse Sir. Foi lançado, na Inglaterra, o livro The Thief at the End of the World (algo como O Ladrão no Fim do Mundo), escrito por Joe Jackson.
Este aí ao lado é Henry Wickham, que morou em Santarém, no Pará, antes de contrabandear as sementes da Seringueira (hevea brasiliensis), perambulou pela América Latina, faliu algumas vezes e até contraiu malária. Entretanto, foi mais esperto e enganou as autoridades brasileiras da época conseguindo fazer esse contrabando. Eles, os ingleses, se defendem usando a lógica do capitalismo colonial, tanto que o autor diz o seguinte:
(…) foi um esforço de Wickham, isto fazia parte da economia colonial e foi apoiado pelo governo (Inglês) e pelo diretor do Kew (o jardim botânico de Londres).
Isso ajudou a Inglaterra a ser mais império econômico ainda. Fato inegável, pois conseguiram acabar com o monopólio brasileiro sobre a borracha.
E, na maior cara de pau, ao final da resenha que saiu no The Times, o resenhista solta a seguinte pérola:
É necessário lembrar que a Inglaterra não foi o único país envolvido em pilhagens botânicas. O Brasil também é culpado de algo parecido, quando contrabandeou sementes de café, dos franceses, e se tornou o maior produtor mundial.
O absurdo da biopirataria é tamanho, que até sangue indígena anda sendo contrabandeado. E como os países desenvolvidos estão meio que receosos com os biocombustíveis colocam o Brasil, que produz álcool de cana no mesmo balaio que os EUA, que produzem álcool de milho, e preferem pedir para que o governo britânico atrase a adoção desses combustíveis nos postos de gasolina.
Que os ingleses foram piratas não há como negar. As cartas de Corso hão de contar sempre a verdade sobre essa história, a de um país que procurava enriquecer e que achou a maneira mais fácil de fazer isso roubando dos outros.
Quer dizer, a lógica era mais ou menos assim: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Os espanhóis sofreram na mão dos corsários, piratas funcionários públicos, ou melhor, mancomunados com a Rainha Elisabeth I, que teve até o seu “coisa e tal”, um pirata, compartilhando com ela o mesmo sabonete e que, depois de tanto roubar ouro asteca que os espanhóis usurparam, virou Sir Francis Drake.
Eu sempre gostei muito de filmes de pirata e há falas que sempre são comuns nesse tipo de filme. Invariavelmente, um pirata inglês era capturado pelos espanhóis e seguia-se a tortura. Aí vinha a famosa frase: “Fale cão inglês!”. Como o inglês não falava o que o espanhol queria ouvir, este emendava com: “E o cão ainda rosna”. É muito engraçado mesmo.
Era hábito dos filhos da Velha Albion gatunar colônias e países do chamado Terceiro Mundo sem qualquer cerimônia. Lembremos que por conta de uns selos e do chá, os EUA foram à luta e se libertaram do domínio inglês. Lembremos, também, da cena em que Gandhi apanha um punhado de sal nas mãos e faz disso um dos motivos para a libertação da Índia. Nem o sal, que é vida, os indianos poderiam produzir.
A lógica para tirar o corpo fora, como percebemos, ainda é a mesma dos tempos dos corsários: Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Portanto, o pneu do carro do Lewis Hamilton tem mais é que furar mesmo!

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