• Filósofos da Antiguidade só pensavam naquilo

    by  • 20/01/2011 • História, Humor, Livro • 1 Comment

    Pode parecer que não, mas não se espante com o fato de, entre as preocupações com o Universo, desvendar sentido da vida e as sutilezas da ética, os filósofos da Antiguidade gastavam neurônios pensando em sexo. E esse é o mote do livro “Sex and Sensuality in the Ancient World” (Sexo e Sensualidade no Mundo Antigo), de Giulia Sissa, no qual ela faz um relato de como, por exemplo, Platão encarava a ereção. Ele afirmava que o “pênis é uma besta rebelde, ansiosa e tirânica”. Que coisa mais estranha, não?(n.t.). Porém, para Aristóteles, uma ereção era algo tão normal quanto andar pra frente ou respirar; é uma coisa natural. Santo Agostinho, que não era da época em questão, não fez por menos. Carimbou a ereção, digamos incontinente, como um dos males que levam ao pecado original. Imagine se todos pensassem assim. Não sobraria um ser humano para contar a história.

    Estátua de Príapo representado pelo falo ereto.

    Quando falavam da mulher (que horrooor!)[1], eles não negligenciavam a sexualidade da ala feminina da nossa espécie, apenas diziam que o órgão sexual feminino era uma versão corrompida do órgão sexual masculino (barbaridade!)[2]. As mulheres são mais suaves e ficam úmidas. Segundo eles, havia uma espécie de pênis que ficava em seu colo e também ejaculavam, só que de forma diferente. Bem, a maioria dos escritores e filósofos da Antiguidade era misógina. Logo, parece que não havia conhecimento de causa para falar da mais bela criação da Natureza, a mulher.[3]

    Ainda segundo Platão, quando falou do desejo, havia três sexos: Homem, Mulher e Andróginos. Esses andaram pisando na bola e foram extintos. Tentaram atacar os deuses e Zeus os varreu da face da Terra. Mas, ainda segundo essa ideia, em cada ser humano pulsa aquela vontade de novamente enfrentar os deuses. Entenderam? Pois é… estranho pra caramba[4].

    A autora também faz uma relação entre penetração e poder, mesmo afirmando que até o século XIX, não havia armários.O que nos leva a lembrar da frase de Oscar Wilde, o tal do “amor que não ousa dizer o nome”, que foi escamoteado no amor platônico[5]. Voltando ao ato da penetração, ao homem foi dado o papel, digamos, de penetrar tudo que bem entendesse como, por exemplo, mulheres, crianças, cabras e árvores (Esta não é uma nota do tradutor. É a opinião da autora do livro). Ao mesmo tempo, o papel de submissão e passividade na relação não era o desempenhado pelo homem, que não se constituía num objeto de desejo caracterizado pela passividade. A penetração não envolvia romantismo. Era, na verdade um ato cercado de ações em detrimento do sentimento. Portanto, segundo a autora, não havia uma identidade definida separando heterossexualidade da homossexualidade. Diziam que o “verdadeiro homem” podia dormir com mulheres e rapazes, desde que não fosse penetrado.

    Esses gregos eram muito estranhos mesmo, como diria Obelix se os conhecesse antes dos romanos. (n.t.)

    A autora também cita a obra de Michel Foucault, a História da Sexualidade [6], que tenta entender as mudanças ocorridas na forma como é encarada a sexualidade, mesmo que possamos crer que na Antiguidade, o sexo era muito mais uma relação de poder, ao contrário da atual que coloca o amor em primeiro lugar.

    Apesar do tom humorado que dei a este artigo, que é uma livre tradução da resenha que Mary Beard, do The Times, fez para esse livro, cabe lembrar que a autora faz uma análise da sexualidade e da sensualidade entre os gregos, romanos e os primórdios da era cristã. O seu grande trabalho é tentar entender, e separar, o prazer do desejo na Antiguidade e como cada homem e mulher lidava com o erotismo.


    [1] Nota bem irônica do tradutor.
    [2] Eles diziam… “Que horroooor!” revirando os olhinhos. Nota mais irônica ainda do tradutor.
    [3] Nota do tradutor. A mulher foi a melhor coisa que Deus fez.
    [4] Se você leu o Banquete, pode ser que tenha a mesma impressão que eu tive: um bando de enrustidos querendo saber se deveriam ou não soltar a franga.
    [5] Sabe qual é a cura para o amor platônico? Uma trepada homérica. (n.t.)
    [6] Michel Foucault morreu de Aids e deixou o quarto volume do livro inacabado. (n.t.)

    Nota: Este artigo foi escrito no Recanto das Palavras e quando transferi o blog para outro servidor, o atual, ele não foi carregado. Aproveitei, então, para reapresentá-lo. Espero que tenham gostado.

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