• Nazistas brincavam Carnaval

    by  • 12/02/2011 • Carnaval, História, Livro • 0 Comments

    Durante o Terceiro Reich, os nazistas controlaram a maior festa popular temendo críticas e zombarias ao regime.

    É isso que os historiadores alemães, Carl Dietmer e Marcus Leifeld, apresentam no livro “Alaaf und Heil Hitler: Karneval im Dritten Reich” (algo como Esquindô lê lê e Heil Hitler: Carnaval no Terceiro Reich), lançado em 2009.

    Quer dizer, controlavam e desvirtuavam o sentido da festa que desde os primórdios, as Saturnálias e Dionisíacas, tinha por objetivo comemorar, sem regras, a vida e as colheitas e, por que não dizer, fazer críticas e zombarias aos governantes.

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    Foto ₢ Volker Hartmann (ddp)
    Detalhe para a sigla NPD evacuada pelo destaque do carro.
    Significa Partido Democrático Nacional da Alemanha, ou Partido Nazista

    O Carnaval Nazista

    Segundo os autores, os nazistas tentavam controlar todos os aspectos da vida cotidiana e gradativamente foram se infiltrando na organização do Carnaval nas principais cidades alemãs, em que a festa era realmente marcante como Colônia, Dusseldorf e Bonn que, de acordo com a jornalista Arlete Aoffiatti, do blog Tudo de bom (leia o artigo Alaaf! Tempo de Karneval) , “são a Bahia da Alemanha”.

    Ao contrário do nosso que começa na sexta-feira e só acaba na quarta feira, ou também dos norte-americanos, o Mardi Gras, que cai na terça-feira gorda (Carnaval pelo mundo: Oxum no Mardi Gras de New Orleans), o Carnaval alemão começa na segunda-feira (Rosenmontag) e termina na quarta-feira de cinzas ( Aschermittwoch).

    Ao clicar sobre imagem abaixo, você pode ver um slide show diretamente no portal do Der Spiegel com várias imagens do carnaval de 1934, em Colônia, na Alemanha.

    carro-alegórico-satirizando-judeus  ₢ Der Spiegel
    Carro alegórico satirizando judeus ortodoxos.
    No cartaz está escrito: “Os últimos estão partindo”

    Como não existe humorismo a favor de quem está no poder, o Carnaval passou a fazer parte das preocupações propagandísticas dos amigos daquela figuraça que usava corte de cabelo do tipo Emo e um bigodinho estranho. Tanto que o mote das zombarias passaram a ser os judeus (em sua grande parte), os Russos, a Liga das Nações e até mesmo o prefeito de New York Fiorelo La Guardia, filho de mãe judia. E quem falasse algo que não fosse a favor, era preso e executado como aconteceu com Leo Statz, o organizador do carnaval em Dusseldorf que escrevia e cantava canções satíricas e irreverentes zombeteiras. Este é o espírito das Marchinhas de Carnaval. Em 1943, cometeu o erro de questionar a Alemanha e uma possível vitória na guerra que os nazistas empreendiam contra o Mundo. Foi executado pela Gestapo. Outros deram sorte como, por exemplo, Karl Küpner, que fez a saudação nazista e, em vez de dizer Heil Hitler, ele olhou para o céu e … “Será que hoje vai chover?”. Levou uns catiripapos e foi preso. Nunca mais o deixaram falar ou brincar.

    carnaval-alemanha-nazista
    Carros alegóricos e cartazes promovendo o Carnaval nazista ₢ Der Spiegel

    O Terceiro Reich tentou transformar a festa em outro tipo de comemoração, semelhante aos comícios nazistas tão impressionantes. Seus carnavais tinham menos humor e mais pompa.

    Punição a quem satirizava o regime

    Apesar da irreverência de alguns que dessa forma julgavam impedir o controle da festa pelos donos do poder, a maioria do povo alemão acabou “assimilando”, mesmo que à força o ideal de carnaval desejado pelos nazistas. Tanto que até hoje, acreditem, há um discurso que inaugura a festa – uma espécie de primeiro grito de carnaval –, o Prinz Proklamation, a Proclamação do Príncipe, instituído nessa época. Nem mesmo as tradicionais fantasias de homens vestidos de mulher eram permitidas. Dá para imaginar um Carnaval sem Bloco das Piranhas?, quer dizer “Bloco das Valquírias” – ao som de Cavalgada das valquírias, por favor – E como muitos nazistas fugiram para a América Latina, creio que vieram soltar as amarras (e outras coisas, sabe-se lá), como no diálogo abaixo, escrito por mim em outro artigo sobre o carnaval no Recanto das Palavras, satirizando as entrevistas que fazem com turistas em plena Sapucaí.

    Mostra aqui, diz a repórter para o cinegrafista, ao chamar um gringo louro e gordo, com a pele mais rosada que a capa do Jornal dos Sports…

    - What is your name?
    - Was? (esticando a orelha em direção à boca da repórter)
    - Como te llamas?
    - Was? (Rindo como um boboca e com a orelha já quase colada na boca da repórter. Uma cena quase erótica)
    - Seu nome! (berra a repórter)
    - Ah… Herman Goëring!
    - Mostra no pé aí pra gente ver… (a repórter matou as aulas de história)

    O gringo levanta o braço direito, espalma a mão e diz em alto e bom  som…

    - HEIL!
    - CORTA! CORTA! CORTA! (grita o diretor)

    E o gringo saiu cantando…

    Ich möchte Mami, Mami ich will
    Mama ich will saugen!

    (Mamãe eu quero, mamãe eu quero
    Mamãe eu quero mamar!)

    Propaganda e Turismo

    A preocupação e o medo de receber críticas era tamanha que chegavam a retirar fotos e cartazes dos dirigentes para não serem pichados por foliões bêbados ou não. E como a propaganda corria solta, o objetivo era mostrar não apenas a força do regime, mas também que era um tempo de paz e alegria e que qualquer turista poderia visitar a Alemanha, isto é, desde que não fosse judeu. Em anos anteriores, cerca de 1 milhão de holandeses brincaram o carnaval na terra de Beethoven, Wagner, Nietzsche, Kant e Goethe.


    * Este artigo do Recanto das Palavras foi criado a partir da tradução e adaptação da matéria The Nazis’ Bid to Control Carnival, de Siobhán Dowling, para o Der Spiegel.

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