Os intelectuais e o preconceito com as massas
by Jorge Alberto • 13/03/2011 • Escritores, Livros • 4 Comments
Como os autores e intelectuais do Modernismo encaravam a si e a cultura popular.
TS Eliot previu que “A expansão da educação levará à barbárie”. HG Wells desejava impedir o crescimento populacional de negros e pardos (mestiços), que ele considerava inferiores aos brancos. Charles Baudelaire dizia que a fotografia era uma distração para a “vil multidão”.
Por mais que tentemos nos lembrar, pelo menos no meu caso, eu só tenho notícia de um autor de livros realmente esnobe, o irlandês Oscar Wilde, que, na verdade, era mais um dândi. Alguns críticos, em relação ao cenário literário intelectual brasileiro, colocam João do Rio (Paulo Barreto) no mesmo patamar, o de um flaneur (veja definição no blog da barbara-rt).
Ao ler alguns jornais lá de fora, deparei-me com uma nota sobre um livro interessante, cujo título original é: Intellectuals And The Masses: Pride and Prejudice Among the Literary Intelligentsia, 1880-1939) (Os intelectuais e as massas: orgulho e preconceito entre a Intelligentsia literária de 1880 a 1939), que foi escrito e lançado há alguns anos por John Carey, professor em Oxford e comentarista da BBC.
A lista de autores que execravam a cultura popular, muito mais como uma defesa de seus supostos patamares literários que eles próprios afirmavam estarem acima da plebe ignara, e disso devido a um certo ar auto-nobiliárquico, é extensa e contém nomes que nos são familiares, a saber: DH Lawrence, Ezra Pound, WB Yeats e TS Eliot entre outros.
A tese do professor Carey é que o modernismo [inglês] nasceu em um acesso de revolta esnobe para a disseminação da alfabetização e da cultura popular. O modernismo, diz ele, é menos um movimento cultural motivado por imperativos estéticos determinados e espiritual do que uma cabala social. Sua ambição principal é de excluir tantas pessoas quanto possível, do prazer e compreensão da cultura de forma que os mandarins auto-nomeados da cultura podem desfrutar de sua própria [e suposta] superioridade cultural. (Roger Kimball)
Livros populares
A colocação num patamar acima das massas surgiu, de acordo com o autor, do fato de as massas, devido a educação passarem a ter acesso a um tipo de cultura letrada, portanto, massificada, que os fazia torcer os narizes como se fosse algo de valor menor. Até hoje este tipo de preconceito é encontrado nos meios intelectuais e acadêmicos. Qualquer autor que, por exemplo, não faça parte da academia e que consiga escrever um livro de sucesso sobre, digamos a história do Brasil – sabemos de quem estamos falando – é considerado um autor menor e seu trabalho é visto apenas como perfumaria. Porém, se olharmos bem, é uma forma de disseminar, em princípio, cultura. Certamente, seria excelente que todos nós, a massa, pudéssemos desfrutar do prazer de ler e observar obras complexas, mas se é possível ter um primeiro nível de introdução à cultura, porque não pode ser de uma forma massificada?
Machado de Assis
Lembrando bem, o nosso escritor maior escrevia para as massas em folhetins, não? Falo de Machado de Assis. Então, o tempo se encarrega de colocar as coisas nos devidos lugares. Alguns podem questionar o fato de Machado até “renegar” sua etnia. Creio que devamos, antes, entender o seu tempo. Leia o artigo Machado de Assis em dois livros: psicanálise e etnia, aqui no Recanto das Palavras, em que os livros Machado de Assis Afrodescendente e Freud e Machado de Assis: uma interseção entre psicanálise e literatura são analisados e comentados.
O mote do livro, como não poderia deixar de ser, em se tratando de um professor inglês, tem um viés em que estão no campo de batalha a visão nobre e a visão comum. É aquela coisa dos Lordes X Classe trabalhadora, a working class, que foi formada com o advento da Revolução Industrial. Pode ser que alguns autores se considerassem lordes e a classe trabalhadora nada mais deveria fazer a não ser trabalhar para que eles pudessem etereamente flanar pelos salões literários.

“Michel Foucault: o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que eles são agentes da “consciência” e do discurso também faz parte desse sistema. (…) a teoria não expressará, não traduzirá, não aplicará uma prática; ela é uma prática.”
http://anarcofagia.com/sss/2011/01/os-intelectuais-e-o-poder-por-foucault-e-deleuze/
Abraço!
Aí, quem sabe, na outra ponta da corda encontramos os Intelectuais orgânicos que o Gramsci apresentou.
Ótimo texto!
Lembrei-me imediatamente de Malthus, cuja teoria populacional dizia que a população dobrou e a produção de alimentos não acompanhou o crescimento. Devido a isso, as massas mais pobres, sem educação, iletradas e promíscuas (texto de Malthus) deviam ter um controle de natalidade, enquanto as classes mais abastadas e com posses podiam livremente criar suas famílias. E adivinha? Malthus era britânico, vinha nessa leva de intelectuais que alegavam que as massas eram gado e deviam ser tratadas como tal. E na teoria ele ainda diz que Deus apoiava as classes abastadas, e por isso eles eram permitidos a ter filhos enquanto os pobres não.
Isso só mostra o quanto esse tipo de pensamento ainda permeia a sociedade, pois ainda existem mentes que eu achava serem pensantes, professando tais bobagens.
Abração!
Ainda é resquício da sociedade estamental, em que clero e nobreza estavam no topo da pirâmide e o restante da população deveria trabalhar para seu sustento.