• Talvez eu esteja nostálgico

    by  • 02/12/2011 • Comportamento, Memórias • 3 Comments

    Antigamente, quando eu queria encontrar com os amigos ia até a rua. Entendamos que “rua” pode ser praça, esquina, clube, estádio e qualquer lugar em que as pessoas olhavam nos olhos e se abraçavam ao ver, rever, encontrar ou reencontrar aquelas pessoas com quem tinham maiores afinidades.

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    Ouça “Clube de Esquina 2”, na gravação de Lô Borges, enquanto lê o artigo.

    Ao mesmo tempo, a transmissão do conhecimento – fofoca também é cultura –, na maioria das vezes se dava pela palavra falada e todas as entonações que delas poderiam advir e a ênfase que poderíamos dar. A linguagem do corpo – olhares, gestos, suspiros, meneios – acrescentavam mais às conversas. Todos tinham uma história para contar, um causo a relatar, uma piada para fazer rir e uma história triste para fazer chorar. As frases poderiam ser longas, curtas e conter diversas interjeições, onomatopeias, sons diversos e olhares que diziam tanto quanto.

    A paquera ao vivo e em cores se dava de forma, digamos, até inocente. Ninguém mostrava o tórax delineado por academias ou anabolizantes. As meninas não precisavam fazer caras e bocas em fotos, mas serem vistas e observarem. As escolhas não aconteciam por imagens photoshopadas e muito menos por citações de Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu como se fossem as maiores e mais belas palavras. Ninguém fazia CTRL C + CTRL V no que os outros falavam. Faziam, sim, o famoso “quem conta um conto aumenta um ponto”, o que denota criatividade em vez de mecanicidade.

    As músicas que gostavam eram mostradas, caso surgisse um violão, ali, naquele exato momento. Vide o Clube de Esquina dos mineiros… “Noite chegou outra vez. De novo na esquina…”. Podíamos ficar na rua até tarde jogando conversa fora, confraternizando, vivendo uma vida real com cheiros, sons, sabores, olhares. A história de assombração que os mais velhos contavam, que assustavam a todos e a frase dita em tom de ensinamento: “com essas coisas não se brinca”. O mentiroso que a cada vez contava uma mentira mais verdadeira que a anterior. A mãe chamando os filhos para entrar, pois já era tarde. Amarrar vela em linha e, do outro lado do muro, puxar para ver alguém sair correndo pensando que era alma do outro mundo. A briga de marido e mulher, que invariavelmente começava aos berros dentro de casa e vez ou outra ia para a rua. O gato que fazia xixi no telhado e molhava quem estava na calçada. O cachorro bravo que fugia e todos corriam de medo. A prima da vizinha que vinha passar férias e todos ficavam com olho comprido querendo namorar.

    Não tem mais árvore para subir e comer goiaba, tamarindo, carambola, jamelão, baba de boi (coquinho de catarro), manga e cajá…

    Soltar pipa, jogar bola de gude e pelada em campo de terra, rodar pião, soltar balão…

    Talvez eu esteja nostálgico.

    Creio que tudo isso e muito mais se perdeu com a modernidade.

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    3 Responses to Talvez eu esteja nostálgico

    1. 04/12/2011 at 07:43

      É, meu amigo.
      Acho que estou tão nostalgica, quanto você.
      Realmente nos afastamos muito da simplicidade que sempre resulta em felicidade.
      É, procuro as palavras, mas elas estão fugindo. Ou se protegendo. Quem sabe?
      E concordo, plenamente, que a correria da vida moderna só trouxe prejuizo.
      No tempo dos genéricos, a vida se tornou, também, genérica.
      Um grande beijo.

    2. Talitha
      15/01/2012 at 23:18

      Eu cresci comendo goiaba em cima da goiabeira mesmo, “limpando” na própria blusa pra comer…
      E tive a felicidade de ver meus dois filhos crescerem em um bairro em Porto Alegre, onde até hoje se brinca na rua.
      Não com a tranquilidade de antes, mas com uma liberdade que nem se vê mais.
      Talvez eu também seja nostálgica, mas gosto mesmo é do simples da vida!

    3. 16/01/2012 at 01:13

      Não sei se fomos os últimos a fazer tudo isso. Sei apenas que não se vê mais esse tipo de coisa.

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